Entendendo e apoiando crianças com ansiedade e depressão
- Neuríssima
- 19 de nov. de 2025
- 7 min de leitura

A infância deveria ser um tempo de descobertas, risadas e brincadeiras sem fim. No entanto, para um número crescente de crianças, essa fase é marcada por sombras invisíveis: a ansiedade e a depressão. Longe de serem “frescura” ou “birra”, esses são desafios reais que afetam o desenvolvimento, o aprendizado e a capacidade de uma criança de simplesmente ser criança. Como pais, educadores e cuidadores, nosso papel é aprender a decifrar esses sinais silenciosos e oferecer o apoio que eles tanto precisam.
Não é fácil ver um filho ou aluno sofrendo, e muitas vezes nos sentimos perdidos, sem saber como ajudar. Mas a boa notícia é que, com informação, carinho e as estratégias certas, podemos fazer uma diferença enorme. Este artigo é um convite para olharmos com mais atenção para o mundo emocional dos nossos pequenos, entendendo o que se passa e como podemos ser um porto seguro em meio à tempestade.
O limite tênue: Quando a tristeza e o medo viram alerta?
É natural que as crianças sintam medo do escuro, fiquem tristes quando perdem um brinquedo ou se sintam ansiosas antes de uma prova. Essas são emoções humanas e parte do crescimento. A questão é: quando essas emoções se tornam tão intensas, frequentes e duradouras que começam a atrapalhar o dia a dia da criança?
Imagine uma balança. De um lado, estão as emoções normais da infância. Do outro, o impacto dessas emoções na vida da criança. Se a balança pende para o lado do impacto negativo – afetando a escola, as amizades, o sono, a alimentação ou a alegria de viver – é hora de acender o sinal amarelo. Não se trata de patologizar a infância, mas de reconhecer que, assim como um resfriado que não melhora, um sofrimento emocional persistente também precisa de atenção.
Os sussurros da ansiedade: como ela se manifesta nas crianças
A ansiedade em crianças nem sempre se parece com a ansiedade dos adultos. Ela pode ser um monstrinho que se esconde atrás de comportamentos que, à primeira vista, parecem outra coisa.
Pense na criança que, de repente, não quer mais ir à escola, reclamando de dor de barriga todas as manhãs. Ou aquela que se recusa a dormir sozinha, mesmo já tendo idade para isso, com medo de algo indefinido. A ansiedade pode se manifestar como:
A sombra da tristeza: reconhecendo a depressão infantil
A depressão em crianças é um tema ainda mais delicado, pois muitas vezes é confundida com mau humor ou fases. No entanto, ela é uma condição séria que rouba a cor da vida dos pequenos.
Imagine uma criança que antes era cheia de energia, que adorava brincar e interagir, e agora parece ter perdido o brilho. Ela se isola, não demonstra interesse pelas coisas que antes a encantavam e parece carregar um peso invisível. A depressão pode se apresentar como:
Preocupação excessiva: A criança se preocupa demais com coisas que a maioria das crianças não se preocuparia, como o futuro, a segurança dos pais ou eventos que ainda não aconteceram.
Medos intensos e irracionais: Medo de animais, de lugares fechados, de se separar dos pais (ansiedade de separação), de falhar em tarefas simples.
Sintomas físicos: Dores de cabeça frequentes, náuseas, vômitos, tremores, suores, taquicardia, dificuldade para respirar. O corpo da criança reage ao estresse emocional.
Irritabilidade e explosões de raiva: A criança ansiosa pode estar tão sobrecarregada que qualquer pequeno estímulo vira um gatilho para irritação ou choro incontrolável.
Dificuldade de concentração e sono: A mente agitada pela ansiedade torna difícil focar na escola ou relaxar para dormir, resultando em noites mal dormidas e cansaço diurno.
Evitação: A criança começa a evitar situações, lugares ou pessoas que antes gostava, tudo para fugir do que lhe causa desconforto.
A sombra da tristeza: reconhecendo a depressão infantil
A depressão em crianças é um tema ainda mais delicado, pois muitas vezes é confundida com mau humor ou fases. No entanto, ela é uma condição séria que rouba a cor da vida dos pequenos.
Imagine uma criança que antes era cheia de energia, que adorava brincar e interagir, e agora parece ter perdido o brilho. Ela se isola, não demonstra interesse pelas coisas que antes a encantavam e parece carregar um peso invisível. A depressão pode se apresentar como:
Tristeza persistente: Uma tristeza que não passa, que dura a maior parte do dia, quase todos os dias, e que não é aliviada por atividades prazerosas.
Perda de interesse: A criança perde o prazer em brincadeiras, hobbies ou atividades que antes adorava. O que antes era divertido, agora parece sem graça.
Mudanças no apetite e no sono: Pode haver um aumento ou diminuição significativa do apetite, levando a ganho ou perda de peso. O sono também pode ser afetado, com insônia ou sono excessivo.
Fadiga e falta de energia: A criança parece constantemente cansada, sem energia para as atividades diárias, mesmo após uma noite de sono.
Irritabilidade e agitação: Em crianças, a depressão pode se manifestar mais como irritabilidade e mau humor do que como tristeza explícita.
Sentimentos de inutilidade ou culpa: A criança pode expressar sentimentos de que não é boa o suficiente, que é culpada por algo ou que ninguém gosta dela.
Dificuldade de concentração: A capacidade de focar na escola ou em tarefas diárias diminui, impactando o desempenho acadêmico.
Pensamentos sobre morte ou suicídio: Em casos mais graves, a criança pode falar sobre não querer viver, desejar morrer ou até mesmo fazer planos para se machucar.
Este é um sinal de alerta máximo e exige ajuda imediata.
O que alimenta esses sentimentos? Fatores de risco
Nenhuma criança nasce com ansiedade ou depressão, mas algumas são mais vulneráveis devido a uma combinação de fatores. Conflitos familiares, bullying na escola, mudanças bruscas (como a separação dos pais ou a mudança de cidade), perdas significativas (morte de um ente querido ou animal de estimação), ou até mesmo um histórico familiar de transtornos mentais podem aumentar o risco. O ambiente em que a criança cresce e as experiências que ela vivencia desempenham um papel crucial.
O abraço que acalma: estratégias parentais para o dia a dia
Como pais, temos um poder imenso de influenciar o bem-estar emocional de nossos filhos. Não somos terapeutas, mas somos os primeiros e mais importantes cuidadores. Aqui estão algumas estratégias que podem ajudar:
1. Crie um porto seguro: Garanta que a criança se sinta amada, segura e aceita incondicionalmente em casa. Um ambiente familiar estável e acolhedor é a base para a saúde mental.
2. Valide os sentimentos: Em vez de dizer “Não é nada” ou “Pare de chorar”, tente frases como “Eu vejo que você está triste/com medo, e tudo bem sentir isso” ou “Estou aqui para te ajudar a passar por isso”. Validar não é concordar com o motivo, mas reconhecer a emoção.
3. Incentive a comunicação: Crie momentos para conversar, sem pressão. Pode ser durante o jantar, antes de dormir ou em um passeio. Pergunte sobre o dia dela, o que a deixou feliz ou preocupada. Escute mais do que fale.
4. Ensine a respirar: Técnicas simples de respiração profunda podem ser ensinadas como uma brincadeira. “Vamos cheirar a flor e soprar a vela?” Ajuda a criança a regular suas emoções em momentos de estresse.
5. Estabeleça rotinas claras: A previsibilidade traz segurança. Horários para dormir, comer, estudar e brincar ajudam a criança a se sentir mais no controle e menos ansiosa.
6. Incentive atividades prazerosas: Garanta que a criança tenha tempo para brincar livremente, praticar esportes, desenhar, ler ou fazer qualquer coisa que a divirta e a ajude a relaxar.
7. Seja um modelo: As crianças aprendem observando. Se você lida com o estresse de forma saudável, elas tendem a imitar. Cuide da sua própria saúde mental.
8. Reduza a pressão: Evite sobrecarregar a criança com atividades demais ou expectativas irrealistas. A infância é para ser vivida, não para ser uma corrida por perfeição.
A mão estendida: quando buscar ajuda profissional
Há momentos em que o amor e o apoio familiar, por mais essenciais que sejam, não são suficientes. É como uma febre alta que não cede: precisamos de um médico. Buscar ajuda profissional não é sinal de falha parental, mas de coragem e responsabilidade.
Você deve considerar procurar um especialista se:
● Os sintomas persistem: Se os sinais de ansiedade ou depressão duram mais de duas semanas e não mostram melhora, ou até pioram.
● Há prejuízo significativo: Se a criança está tendo dificuldades sérias na escola, perdendo amigos, se isolando ou não consegue participar de atividades diárias.
● Comportamentos de risco: Se a criança fala sobre querer morrer, se machucar, ou apresenta comportamentos autolesivos. Nesses casos, procure ajuda imediatamente.
● A família se sente esgotada: Se você e sua família estão exaustos, sem saber mais o que fazer, um profissional pode oferecer novas perspectivas e estratégias.
Os profissionais que podem ajudar incluem psicólogos infantis, que trabalham com terapia e estratégias comportamentais, e psiquiatras infantis, que podem avaliar a necessidade de medicação em casos mais graves, sempre em conjunto com a terapia. Em alguns casos, outros especialistas como terapeutas ocupacionais ou neuropediatras também podem ser indicados.
Conclusão: um caminho de amor e cuidado
A ansiedade e a depressão em crianças são desafios complexos, mas não são uma sentença. Com atenção, carinho, estratégias parentais eficazes e, quando necessário, o apoio de profissionais qualificados, podemos ajudar nossos filhos a navegar por essas dificuldades e a reencontrar a alegria e a leveza da infância. Lembre-se: você não está sozinho nessa jornada. O primeiro passo é sempre o mais importante: olhar, ouvir e agir com o coração.
Se você se identificou com algum dos sinais ou sente que seu filho precisa de apoio, não hesite em procurar ajuda. A saúde mental das nossas crianças é um investimento no futuro delas e de toda a nossa sociedade.
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